quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009


segue a saga: Jonas e a baleia. um poema de augusto de campos, de 1990: cançãonoturnadabaleia. (aliás, ao q google consta, esta é a primeira postagem pública deste poema.) um fragmento de gilles deleuze, de 1977, em da superioridade da literatura anglo-americana. (a baleia segue errante / agora falante / / a sua perspectiva.)
Sempre há traição em uma linha de fuga. Não trapacear à maneira de um homem da ordem que prepara seu futuro, mas trair à maneira de um homem simples, que já não tem passado nem futuro. Trai-se as potências fixas que querem nos reter, as potências estabelecidas da terra. O movimento da traição foi definido pelo duplo desvio: o homem desvia seu rosto de Deus, que não deixa de desviar seu rosto do homem. É nesse duplo desvio, nessa distância dos rostos, que se traça uma linha de fuga, ou seja, a desterritorialização do homem. A traição é como o roubo, ela é dupla. Fizeram de Édipo em Colônia, com sua longa errância, o caso exemplar do duplo desvio. Mas Édipo é a única tragédia semita dos gregos. Deus que se desvia dos homens, que se desvia de Deus, é antes de tudo o tema do Antigo Testamento. É a história de Caim, a linha de fuga de Caim. É a história de Jonas: o profeta se reconhece pelo fato de tomar a direção oposta àquela que Deus lhe ordena, e com isso realiza a ordem de Deus melhor do que se tivesse obedecido. Traidor, ele tomou o mal sobre si. O Antigo Testamento é continuamente percorrido por essas linhas de fuga, linha de separação da terra e das águas.

[Diálogos (tradução de Eloisa Ribeiro), p. 53-54]

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